Derivativos

Paridade put-call: por que call e put nunca são independentes

⚠ Este post contém números ilustrativos/exemplo usados para explicar a mecânica. Não são cotações reais de mercado. Ver nota no corpo do texto.

Call e put costumam ser ensinadas como dois produtos separados, um pra quem acha que sobe, outro pra quem acha que cai. Matematicamente, elas não são independentes. Existe uma equação, a paridade put-call, que amarra o preço de uma call e o preço de uma put de mesmo strike e mesmo vencimento de forma tão rígida que, se ela for quebrada, existe dinheiro de graça na mesa, e isso não sobrevive muito tempo num mercado com gente prestando atenção.

A relação

Para o mesmo ativo, mesmo strike (K) e mesmo vencimento:

C − P = S − K × e^(−rT)

Onde C é o preço da call, P o preço da put, S o preço do ativo, e o termo com o “e” é o valor presente do strike, descontado pela taxa livre de risco até o vencimento (com ativos que pagam dividendo, entra mais um desconto do lado do S). Em português: a diferença entre o preço da call e o preço da put é sempre igual à diferença entre o preço do ativo hoje e o valor presente do strike. Não é uma tendência, não é uma aproximação, é uma igualdade que precisa valer, sob risco de abrir uma janela de arbitragem.

Por que ela precisa valer

Rearranjando a equação, ela diz outra coisa: comprar uma call e vender uma put do mesmo strike replica exatamente o resultado de comprar o ativo a termo (comprometido a um preço fixado hoje, liquidado no vencimento).

Gráfico mostrando que o payoff de call comprada mais put vendida se sobrepõe exatamente ao payoff do ativo comprado a termo, ilustrando a paridade put-call

As duas linhas do gráfico se sobrepõem porque são, literalmente, a mesma posição vista de dois jeitos diferentes. Se o preço de mercado da combinação “call comprada + put vendida” se afastasse do preço do ativo a termo, um agente poderia montar a combinação mais barata e vender a mais cara, travando lucro sem risco algum, independente de o ativo subir ou cair. Esse tipo de oportunidade existe às vezes, por frações de segundo, em mercados com fricção (spread, corretagem, restrição de venda a descoberto), mas não sobrevive de forma persistente. É por isso que a paridade funciona como um freio: ela não descreve uma tendência de mercado, descreve um limite estrutural que o preço não pode furar por muito tempo.

Pra que serve na prática

Além de ser um checador de consistência (se o preço de mercado de uma call e de uma put do mesmo strike implicam num “ativo a termo” muito fora do valor razoável, alguma coisa está errada ou existe uma fricção real por trás, tipo dificuldade de emprestar o ativo pra venda a descoberto), a paridade é a base de toda posição sintética: comprar call e vender put do mesmo strike simula estar comprado no ativo sem precisar do capital integral. Vender call e comprar put simula estar vendido no ativo. É assim que se constrói collar, trava, e a maior parte das estruturas que aparecem neste blog: elas não são truques isolados, são combinações específicas dessa mesma relação de paridade, montadas pra um objetivo de risco diferente do de simplesmente comprar ou vender o ativo à vista.

O gráfico usa parâmetros ilustrativos (K=100, prêmio da call=5, prêmio da put=4) só pra deixar visível a sobreposição. Não é cotação de nenhum ativo real.

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Conteúdo informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento. Operações com opções e derivativos envolvem risco, inclusive de perda superior ao capital alocado.

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